O significado do Salmo 91

Quatro movimentos — o esconderijo, os perigos nomeados, os anjos, a promessa na primeira pessoa — lidos de perto com um único comentarista: Matthew Henry, citado sempre pelo nome e nunca parafraseado em silêncio.

Versículos 1 e 2 — morar, não visitar

O salmo abre com uma promessa construída sobre uma imagem de proximidade.

Salmo 91:1 · Almeida Revista e Corrigida Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.

Matthew Henry, escrevendo no início do século XVIII, reparou primeiro nos verbos: a pessoa descrita aqui não visita a presença de Deus — ela habita ali, assenta-se nela, sente-se em casa nela. Para Henry, esse é o caráter essencial da fé verdadeira: alguém que está em casa em Deus, retorna a Deus e repousa nele como seu descanso, que faz do conhecimento de Deus um trabalho do coração, em vez de manter a religião na superfície. E a promessa ligada a esse habitar não é socorro ocasional, mas pertencimento: tal pessoa, na expressão de Henry, será bem-vinda a ele como um homem à sua própria morada. A sombra do Todo-Poderoso, diz Henry, se interpõe entre o crente e tudo o que poderia perturbá-lo, seja tempestade, seja sol. Então o salmista faz algo que Henry considerou decisivo — ele para de descrever e começa a declarar.

Salmo 91:2 · Almeida Revista e Corrigida Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei.

Digam os outros o que disserem de Deus, busquem os outros refúgio onde buscarem, o salmista finca a sua própria bandeira: meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus. O resumo de Henry é direto: qualquer outro refúgio é um refúgio de mentiras. A proteção do salmo não se reivindica admirando-a de longe; reivindica-se mudando-se para dentro dela.

Versículos 3 a 8 — os perigos, um por um

Os versículos 3 a 8 deste salmo nomeiam perigos reais — armadilhas, pragas, flechas, exércitos — e depois dissuadem o leitor de temê-los, um por um.

Salmo 91:3–4 · Almeida Revista e Corrigida Porque ele te livrará do laço do passarinheiro e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas estarás seguro; a sua verdade é escudo e broquel.

Matthew Henry percebeu como as duas primeiras ameaças foram emparelhadas de propósito: o laço do passarinheiro, armado às escondidas, que apanha de repente a presa desavisada, e a pestilência, que toma os homens de surpresa e contra a qual não há defesa. Uma é malícia; a outra, infortúnio; nenhuma se anuncia. Contra ambas, o salmo levanta a imagem menos militar que se possa imaginar: penas. Henry a remeteu à galinha que ajunta os pintinhos e não apenas os mantém seguros, mas os acalenta e os aquece. Ele também admitiu a fragilidade da imagem — as asas, ainda que estendidas com a maior ternura, são fracas e facilmente rompidas —, e é exatamente por isso que o versículo acrescenta um escudo: Deus está tão disposto a guardar o seu povo como a galinha a guardar os pintinhos, e é tão capaz quanto um homem de guerra em armadura. Então a promessa passa do perigo ao pavor.

Salmo 91:5–7 · Almeida Revista e Corrigida Não temerás espanto noturno, nem seta que voe de dia, nem peste que ande na escuridão, nem mortandade que assole ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil, à tua direita, mas tu não serás atingido.

A leitura de Henry aqui é notavelmente psicológica: os terrores da noite incluem as criaturas da fantasia e da imaginação, que muitas vezes são as mais assustadoras de todas, e o que a fé remove não é a flecha, mas o seu veneno — nas palavras dele, a ponta foi tirada, o veneno já saiu. Milhares podem cair por perto; ao crente não se promete distância do campo de batalha, apenas que o medo não precisa governar a noite.

Versículos 9 a 13 — os anjos e a sua condição

Estes são os versículos que o diabo citou a Jesus no deserto — e Matthew Henry insistiu que a promessa não fica de modo algum pior por ter sido citada e abusada pelo diabo ao tentar Cristo.

Salmo 91:9–10 · Almeida Revista e Corrigida Porque tu, ó Senhor, és o meu refúgio! O Altíssimo é a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.

Henry leu o versículo 10 com honestidade cuidadosa: ele não diz que a tribulação nunca virá, mas que, para quem fez do Altíssimo a sua morada, não haverá nenhum mal real nela, pois virá do amor de Deus e será santificada. Então chegam os anjos.

Salmo 91:11–12 · Almeida Revista e Corrigida Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.

Henry se demorou no quanto essa incumbência é pessoal — ela se estende não apenas sobre a igreja em geral, mas sobre cada crente em particular — e na sua única condição: os anjos te guardam em teus caminhos, o que ele glosou como enquanto te mantiveres no caminho do teu dever. E ele notou o detalhe que dá à história da tentação o seu fio: essa cláusula limitadora é exatamente a palavra que o diabo deixou de fora quando citou a promessa para reforçar uma tentação, sabendo o quanto ela pesava contra ele. O sustentar nas mãos Henry comparou a toda a ternura e afeição com que a ama carrega a criancinha nos braços — uma imagem que, como ele disse, nos declara desamparados, e a eles, prestativos. Quanto ao leão e à serpente do versículo 13, Henry viu o velho inimigo sob os seus nomes conhecidos — leão que ruge, serpente antiga — já destinado a ser pisado.

Versículos 14 a 16 — Deus toma a palavra

No versículo 14 o salmo muda de voz. Até aqui o salmista falava sobre Deus; agora é Deus quem fala por si mesmo.

Salmo 91:14 · Almeida Revista e Corrigida Pois que tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque conheceu o meu nome.

Matthew Henry marca a virada — aqui o salmista traz o próprio Deus falando palavras de consolo aos santos — e chama o que se segue de promessas excessivamente grandes e preciosas, e seguras para toda a descendência. Henry pergunta primeiro a quem elas pertencem, e encontra três marcas: os que conhecem o nome de Deus, os que puseram nele o seu amor com a resolução de nunca transferi-lo a rival algum e os que pela oração mantêm com ele uma correspondência constante. Então vêm as próprias promessas. Eu o livrarei é dito duas vezes, o que para Henry indica um livramento duplo, no viver e no morrer, um livramento na tribulação e um livramento para fora da tribulação.

Salmo 91:15 · Almeida Revista e Corrigida Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; livrá-lo-ei e o glorificarei.

Antes de a tribulação acabar, Deus está presente dentro dela — ele vai conhecer a alma deles na adversidade — e a oração recebe resposta tripla: ele responderá por promessas, por providências e por graças. Ser posto no alto é ser erguido para fora do alcance da tribulação, acima da região das tempestades, sobre uma rocha acima das ondas. E a vida longa do versículo 16?

Salmo 91:16 · Almeida Revista e Corrigida Dar-lhe-ei abundância de dias e lhe mostrarei a minha salvação.

Henry se recusa a lê-la como garantia de anos. Os crentes, diz ele, a acharão longa o bastante, porque um homem pode morrer jovem e, ainda assim, morrer farto de dias. A palavra final, salvação, coroa a bem-aventurança.

Perguntas que os leitores fazem

  1. Quem escreveu o Salmo 91?

    O próprio salmo é anônimo — nenhum título indica autor. Uma tradição antiga o atribuiu a Moisés, porque o Salmo 90 é expressamente atribuído a ele e o Salmo 91 vem logo em seguida. Matthew Henry pondera essa opinião e prefere Davi: é provável que este salmo também tenha sido escrito por Davi. Certeza é impossível, e o salmo não a exige; o que ele nomeia não é um autor, mas um protetor.

  2. Para que serve o Salmo 91?

    É um salmo de confiança para momentos de perigo e medo — epidemia, violência, viagem, noites sem sono. Ele não funciona como fórmula mágica; funciona como declaração de onde você decidiu morar. O que sustenta essa declaração não é a recitação, mas, nas palavras de Matthew Henry, a verdade da promessa de Deus, na qual não há nem pode haver engano algum.

  3. Pode orar o Salmo 91 para dormir?

    Sim. O versículo 5 fala diretamente aos medos que chegam à noite, e há muito tempo cristãos oram este salmo antes de dormir. Não existe número obrigatório de repetições nem hora certa: não é um ritual a cumprir, mas uma confiança a renovar. Orá-lo antes de dormir é simplesmente entregar a noite — seus barulhos, suas notícias, suas preocupações — ao Deus que não dorme.

  4. O que significa “a sombra do Onipotente”?

    Uma sombra só cai sobre o que permanece perto; a imagem é de proximidade. Viver à sombra do Todo-Poderoso — o “Onipotente”, na linguagem consagrada das versões bíblicas — é permanecer tão perto de Deus que tudo o que chega até você precisa passar primeiro por ele. Matthew Henry diz que essa sombra se interpõe entre eles e tudo o que poderia perturbá-los, seja tempestade, seja sol. A expressão descreve intimidade, não geografia — proteção como efeito de permanecer perto.

  5. O Salmo 91 promete que quem crê nunca vai sofrer?

    Não. Matthew Henry lê com cuidado a promessa do versículo 10: ainda que a aflição ou a tribulação te sobrevenha, não haverá nela nenhum mal real. A dificuldade ainda vem; o que muda é o que ela pode fazer — para quem confia em Deus, ela chega filtrada, com propósito, incapaz de dano definitivo. O salmo não promete uma vida sem dor, mas uma vida protegida, em que nada do que toca você se perde.

  6. Por que o diabo citou o Salmo 91 ao tentar Jesus?

    Em Mateus 4:6, o diabo cita os versículos 11-12 para empurrar Jesus à presunção — joga-te, e que os anjos provem a promessa. Matthew Henry repara na edição: os anjos recebem a ordem de guardar os fiéis em todos os seus caminhos, e essa palavra o diabo omitiu quando citou a promessa. A proteção pertence a quem anda nos caminhos de Deus, não a quem os põe à prova. Henry acrescenta que a promessa não fica pior por ter sido citada e abusada pelo diabo.

  7. Como o Salmo 91 é organizado?

    Dezesseis versículos, em três movimentos. Abre com uma declaração pessoal de confiança (versículos 1-2), desdobra-se em promessas contra o laço, a peste, a flecha e o tropeço (versículos 3-13) e termina com Deus falando em primeira pessoa (versículos 14-16). No esquema de Matthew Henry para a seção central, os fiéis serão o encargo dos santos anjos e, no fecho, os favoritos especiais do próprio Deus.